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sábado, 20 de outubro de 2007

A vida entre Bagan e Mandalay

O dia começou bem cedo, e mais uma vez, depois de Yangoon, tivemos a oportunidade de observar o ritual dos monges a pedir comida logo pela madrugada.

Dirigimo-nos até ao barco, num porto irreal. Bem na verdade não havia porto, e o cais de embarque era a própria margem do rio. Embarcávamos por umas tábuas arcaicas e de aspecto pouco sólido que desafiavam o nosso equilíbrio. Felizmente toda a bagagem era transportada por uns carregadores que em troca de alguns Kyats prestavam esse serviço.

O barco estava de acordo com os standards birmaneses, mas não era desagradável. Colocaram-nos numa ampla cabine fechada interior, com bancos parecidos com os de um autocarro. Para além da nossa bagagem, praticamente não estivemos nesse lugar. O barco estava quase vazio, transportando alguns birmaneses 2 casais espanhóis e um de franceses.

A maior parte da viagem foi passada no passadiço superior do ferry ao ar livre. A troco de 1 dólar, as cadeiras de plástico, tornaram esta viagem num miradouro privilegiado da vida do rio e das populações que viviam nas suas margens. E que experiência! Podia fazer-se um tratado antropológico, nas 10 horas que durou a viagem de cerca de 200 quilómetros, entre Bagan e Mandalay.



O Ayeyarwady era a vida daquelas pessoas. Não conseguimos evitar pensar que o desenvolvimento se esqueceu deste lugar. Acreditamos que se tivéssemos passado nos mesmos locais 50 anos antes teríamos visto exactamente as mesmas coisas.


Ali a palavra de ordem era a sobrevivência, e sobressaíam daquela paisagem tropical no meio da Birmânia, as palmeiras que entrecortavam o céu despontando das margens, onde os birmaneses tomavam banho, lavavam a roupa, pescavam, tiravam água para as suas necessidades básicas e onde as faziam também. Por vezes, rio abaixo, barcos carregados com a valiosa madeira de Teca, cruzavam-se connosco com dezenas de homens empilhados sobre os monumentais troncos. Também dentro de água seguiam os troncos rebocados por pequenas embarcações que faziam o mesmo trajecto.


Ao longo das margens, multiplicavam-se as actividades sempre rústicas e intemporais, tal como eram as casas de bambu cobertas de colmo que compunham as ocasionais aldeias que íamos atravessando. Por vezes, stupas douradas, sobranceiras às copas das árvores lembravam-nos que o budismo estava bem vivo e provavelmente mais fervoroso do que em qualquer outro local.


Canoas escavadas em troncos, tornavam-se bastante instáveis à passagem do ferry, atrapalhando a milenar arte da pesca à rede que continuava a ser ali praticada. As margens surgiam também por vezes sarapintadas de branco e cinzento das vacas e búfalos que também reclamavam aquele lugar para si. Mulheres e crianças, paravam o banho ou de bater as roupas que lavavam no rio, para nos observar, e com um aceno açucarado com um sorriso, comunicavam connosco.


A cada paragem do ferry, a cena repetia-se: aproximavam-se habitantes locais tentando vender-nos as suas melancias e bananas.


Crianças com aquela alegria universal que as caracteriza aproximavam-se pedindo guloseimas. Quando as recebiam, pareciam tímidas e envergonhadas, daquela vergonha de quem mesmo sabendo que é miserável na sua condição não o é no seu orgulho.


O Ayeyarwady mostra-se em todo o seu esplendor, com locais onde se parece com o mar tal é a largura que atinge. O rio é autenticamente uma fonte de vida para os milhões de pessoas que dele retiram o seu sustento ao longo dos seus 2170 quilómetros.



À medida, que nos aproximámos de Mandalay, multiplicavam-se os templos que viam as suas cúpulas douradas reflectidas nas águas do rio.

Dez horas e muitos anos de felicidade depois atracámos em Mandalay, onde vários barcos encostados uns aos outros, faziam as vezes de sucessivos cais de embarque.

Após passarmos todos os convés dos vários barcos atracados e de descermos as rampas de acesso à margem, colocámos literalmente os pés em terra. A confusão era total, a desorganização também. Aquele pedaço de terra era deveras movimentado e provocou-nos a sensação de ter entrado dentro do filme "A volta ao mundo em 80 dias". Ficámos apreensivos e precisámos dos habituais minutos de adaptação para voltarmos a perceber aquela realidade que não era a nossa mas onde tudo era pacífico. Entre dezenas de ofertas de táxis, hotéis e comida, lá encontrámos a zona, onde nos esperava o nosso transfer para o hotel.

Ali estávamos nós em Mandalay!

Monte Popa em Bagan

O segundo dia em Bagan nasce depois de bons momentos passados no hotel. Acertámos na escolha e aconselhamos vivamente este hotel a quem queira visitar Bagan. Para além da soberba localização em plena zona arqueológica da chamada “Velha Bagan” e encostado ao rio Ayeyarwady, possui um bom restaurante e uma piscina com muito bom ar, que ainda não tivemos a oportunidade de experimentar.

Após o pequeno-almoço, apanhámos um táxi, que nos levaria através da Birmânia central, numa curta viagem de 45 minutos, ao monte Popa. O nome provém do sânscrito e significa flores, provavelmente devido à fertilidade que circunda o monte já que se acredita que este é o que resta de um antigo vulcão.

O “monte Olimpo da Birmânia”, como é por vezes referido, é um popular destino de peregrinação por albergar as estátuas dos 37 Nats (espíritos) que compõem o imaginário da tradição popular birmanesa e que convive pacificamente com o ideário budista.



Depois da agradável viagem, a aproximação ao monte Popa mostra-nos um enorme “rochedo” bastante pronunciado e que parece despontar do chão em direcção ao céu, sem que se vislumbre a relação com a sua vizinhança. Ao longo da enorme escadaria que leva ao cume (com algum esforço!), encontram-se altares e estátuas que são alvo da fé dos inúmeros peregrinos que sobem até ao topo onde se encontra um complexo de mosteiros, stupas e templos.


A vista do topo é impressionante. Impressionante, é também o realismo de algumas estátuas presentes que acompanhadas por alguns objectos do dia a dia que lá são colocados, dão uma sensação bizarra a quem os observa. Parece que se vão mexer a qualquer momento e há quem jure que a energia das salas é extremamente negativa!


Ao percorrer os inúmeros degraus até ao topo, na extenuante subida, fomo-nos divertindo a observar o comportamento dos inúmeros macacos sempre hiper-activos e ansiosos por nos aliviar de qualquer peso comestível. Podem ser bastante insistentes e até agressivos depois de verem algo que lhes interessa. Não me esqueço de um que veio atrás de mim a agarrar-me a perna com cara de poucos amigos!

Após um almoço num dos inúmeros estabelecimentos que se encontram na base para servir os peregrinos, voltámos a Bagan, onde após visitarmos mais um templo, aproveitámos para relaxar um pouco na piscina do hotel.

No dia seguinte, bem cedo, iríamos fazer a ligação de Bagan para Mandalay num ferry birmanês percorrendo o rio Ayeyarwady e escusado será dizer, que estávamos ansiosos por fazê-lo!

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Bagan, civilização perdida

No caminho do hotel para o aeroporto assistimos a uma cena absolutamente fascinante! Como saímos bastante cedo, vimos a saída dos monges dos templos para a petição diária de comida que vão armazenando no pote de barro que carregam nas mãos.

A fila ordenada em que seguem os monges, munidos das suas túnicas cor de açafrão é uma imagem irresistível! Percorrem as ruas batendo de porta em porta, onde os devotos já os esperam diariamente com comida cozinhada e que vão distribuindo pelos vários recipientes.

Os monges vivem totalmente da caridade do povo. Os alimentos que recebem serão ingeridos até ao meio-dia naquela que constitui a única refeição do dia. A partir daí só mesmo líquidos até ao dia seguinte.

Depois desta cena fantástica lá nos dirigimos para o aeroporto para apanhar uma “chocolateira aérea” que nos levaria até Bagan!

A primeira mudança que notámos foi no clima. Viajámos na época das monções o que significa que em Agosto chove em média 28 dias (tivemos sorte, só choveu num dia!). Em Bagan, que fica localizada na denominada “zona seca”, trocámos o clima mais húmido e quase sem sol, por um clima mais condizente com o que esperamos de umas férias numa zona tropical!

No caminho para o hotel, a paisagem mostrava-se carregada de misticismo, própria de um local com quase mil anos de história para narrar. A emoção de entrar na intimidade daquele lugar, despertou-nos os sentidos.


Entrar nas entranhas daquela civilização perdida, provavelmente uma das mais avançadas da época, que só soçobrou perante a maior potência mundial que eram os mongóis à época, transporta-nos para a sensação de êxtase que deve assaltar o espírito dos primeiros exploradores que tiveram o privilégio de a encontrar.

Ao longo da planície, milhares de pontos laranja, dispersos pela verdejante vegetação, emprestam à paisagem um cariz tão fascinante como surreal. Florescem aqui mais de 2000 templos em tijolo, por vezes coroados com uma resplandecente stupa dourada. Qualquer pintor ficaria aqui ansioso por imortalizar esta imagem numa tela. Como não fomos dotados do engenho e arte necessários a tal façanha, limitámo-nos a fazer algumas fotos, onde a beleza da paisagem se encarregou de as transformar em autênticos postais.


Ao chegarmos ao Bagan Hotel, sabíamos mesmo antes de entrar porque constava este hotel no livro “Os melhores hotéis da Ásia” da Taschen. É que ainda existem locais, que nos permitem viver literalmente a História e ali estávamos nós no meio dela!

Localizado em plena zona arqueológica, o Bagan Hotel, integrava-se perfeitamente na paisagem, todo ele também construído em tijolo similar ao dos templos e com materiais naturais, como complemento das estruturas necessárias. Existia inclusivamente um templo dentro do perímetro do Hotel. O nosso quarto encarava o Ayeyarwady, esse poderoso rio, que rasga a Birmânia de norte a sul ao longo de milhares de quilómetros até desaguar majestosamente no mar de Andamão.

A zona arqueológica é património mundial da UNESCO e o seu potencial rivaliza com o Angkor Wat em Siem Reap no Cambodja. Parece que apesar de todo este potencial, nem a UNESCO conseguiu lidar com as divergências estéticas e a autoridade imposta pela detestável junta militar. Parece que a esta formidável paisagem do século XI, queriam adicionar uma “magnífica torre de betão” para observação!!! Acabaram felizmente por não concretizar estes intentos. Conseguiram no entanto criar o museu de Bagan (que poucos visitam) instalado numa réplica bastante medíocre de um palácio de estilo europeu do século XVIII! Lindo!

Pudemos notar também que em alguns locais, existem verdadeiros atentados (felizmente muito poucos ainda) realizados à custa da mais recente descoberta na Birmânia: o betão!

Existem várias maneiras de se percorrer a zona arqueológica, que se estende por mais de 42 quilómetros quadrados. Nós optámos pela mais luxuosa… uma fantástica carroça!


Não podia ser melhor, naquela atmosfera inebriante e com a nossa consciência ecológica apaziguada, partimos acompanhados da simpatia do guia que nos levou através dos trilhos de terra avermelhada à descoberta da alma e coração de Bagan.

O que é fantástico em Bagan, é que podemos descobri-la mergulhados nesse luxo dos nossos dias que é a intimidade e a privacidade. Existem tantos templos, que a grande maioria deles não deve receber uma visita durante vários dias. Na nossa volta encontrámos mais uma vez poucos turistas, o que nos levava a cumprimentá-los num claro sinal da cumplicidade de quem sabe que pertence a um pequeno grupo de privilegiados que teve a sorte e a clarividência de escolher a Birmânia como destino.


Tirando meia dúzia de templos onde encontrámos vendedores de distintos artigos artesanais (magníficos quadros!), visitámos a grande maioria dos bucólicos templos sem ver vivalma. É impressionante não existir qualquer tipo de protecção ou vigilância sendo possível observar frescos com séculos de história tal e qual como se encontram desde a sua autoria.


Não nos esqueceremos de mais uma imagem que ficou gravada na nossa memória, onde na entrada de um templo mais majestoso, um sem fim de espanta espíritos foi “accionado”. Embalados por aquele som divinal entrámos na certeza de estarmos protegidos…


Para além das muitas estátuas de Buda, frescos de várias épocas e com várias representações e dos emblemáticos templos Ananda Phato e Sulamani Patho, houve um templo, cuja visita se revestiu de um carinho especial. Estava localizado mesmo ao lado do Ananda Patho e traduzido à letra, denominava-se mosteiro de tijolo do Ananda. Contrariamente ao que é habitual, este templo estava fechado. Nada, que alguns “Kyats”, não resolvessem.


Apareceu um estudante universitário (disse ele), que se encarregou de encontrar o velho ancião portador da chave, que abriria segundo ele a porta para alguns dos mais bens preservados frescos de Bagan! Passados alguns instantes, um velhinho de rosto tisnado e com algumas rugas que pareciam datar da fundação da cidade, desembainhou o “chavão” à antiga, tipo portão da quinta e abriu-nos caminho até uma divisão central, que se encontrava totalmente às escuras. O estudante universitário tornado guia (ou talvez o contrário!), tomou a dianteira e empunhou uma lanterna, que nos permitiria seguir a história relatada nos frescos, enquanto ouvíamos a sua esmerada locução.


As cenas descreviam o dia a dia da época e para nosso espanto, representações de portugueses no comércio com os locais e noutras empunhando intimidadoras espingardas, que devem ter impressionado e muito os locais na época. Estava ali mais uma situação, que nos fez encher de orgulho, que nos inchou o ego (informámos imediatamente o guia de que éramos portugueses!) e que nos fez lembrar, que houve realmente um dia em que fomos grandes! É que estar representados em frescos antiquíssimos no meio da Birmânia a mais de 1000 quilómetros do mar e numa altura em que éramos meia dúzia de gatos-pingados, é obra!


A cereja no topo do bolo, foi o famoso pôr-do-sol, onde o sol partilha um pouco da sua cor com a dos templos intensificando-a, e proporcionando-nos uma imagem ainda melhor da que tivemos oportunidade de apreciar ao longo do dia. No topo do terraço daquele templo, fechávamos o dia com chave de Ouro, e num misto de felicidade e apreensão abandonávamos o local sabendo que as expectativas tinham sido superadas!