Acompanha-nos um enorme manancial de informação recolhido ao longo dos últimos tempos, que nos talha o pensamento e nos intensifica a dor que passamos a partilhar com os tibetanos.
Somos recolhidos pelo guia obrigatório que nos foi imposto não nos deixando no entanto enganar pela pele escurecida e curtida pelos elementos agrestes e que é inegavelmente a fisionomia característica dos tibetanos. Já sabemos que inúmeros tibetanos “venderam a alma ao diabo”, por necessidade ou não, trabalhando para a nação “libertadora” a China.
Sendo uma zona politica e socialmente muito sensível, o turismo tem as suas particularidades. A presença policial é ostensiva e propositada em todo o Tibete embora o turista mais distraído possa não reparar que todos os seus movimentos são controlados por estes guias “amigáveis” que o levarão a ver o que as autoridades querem e não o que os turistas pretendiam.
Foi por isso que tivemos que “resolver” uma série de situações que nos queriam impor, mas que com alguma paciência, persistência e obstinação se tornam possíveis de contornar. Relativamente ao hotel, já o tínhamos feito, tendo de ser nós próprios a fazê-lo de Portugal, dado que o que pretendíamos estava sempre cheio quando o solicitávamos pelas vias oficiais. Nada que um telefonema e uns e-mails não resolvam. Impunha-se agora resolver a situação do guia, para que deambulássemos livremente por Lhasa e arredores, falando com os locais, sem qualquer restrição e deixando os nossos interlocutores à vontade.
Assim que travámos conhecimento com o “simpático” guia, fizemos questão em o alertar o quanto apreciamos a viagem independente! Sem papas na língua, transmitimos-lhe que o facto de ele estar ali connosco, não tinha sido escolha nossa, mas que nos tinham imposto a sua presença e o respectivo pagamento, facto aliás que muito nos desagradou. Ironicamente, comunicámos-lhe que iria ter umas férias pagas nos próximos dias, dado que dispensaríamos os seus serviços. O guia não ficou obviamente satisfeito com a situação mas pese embora a sua surpresa, percebeu rapidamente que a nossa posição era inegociável. O guia colocou uma série de entraves a esta situação, falando de impossibilidades legais e propôs uma série de excursões que recusamos educadamente. Segundo ele a visita ao Potala sem guia estava completamente fora de questão, dado que as forças policias estavam presentes em força e qualquer turista desacompanhado além de não poder entrar, criaria uma situação “muito difícil” ao guia responsável por eles. Embora não acreditássemos nestes argumentos, também não o queríamos deixar em maus lençóis e afinal uma negociação é isso mesmo, concessões de parte a parte e no fundo, pareceu-nos um pequeno preço a pagar pela grande liberdade que já estávamos a conquistar!
Não acabámos esta “negociação” sem antes deixarmos bem claro, que após a entrada no Potala, nos abandonaria, deixando-nos a sós na magnificiência do local, numa visita que esperávamos com imensa ansiedade. Acordo firmado! É tempo agora de ficar “perigosamente” à solta para o contacto autêntico com as pessoas e a arte cultural e essencialmente religiosa tibetana!
Todo este episódio, se passa na ligação do aeroporto para a cidade, e apenas foi interrompido por uma pausa no caminho para admirar-mos uns gigantescos frescos pintados na rocha, cobertos por milhares de katas, os tradicionais lenços tibetanos que servem como oferendas religiosas e sociais. Também nós já vínhamos munidos da nossa kata que nos fora oferecida em sinal de boas vindas na chegada ao aeroporto.
Mais tarde teríamos a oportunidade de ver o quanto os chineses estragaram aquele oásis de beleza plantado no topo dos Himalaias.
O hotel era fantástico! Tipicamente tibetano, onde a madeira coloridamente pintada nos aquece a alma ao estilo dos seus templos budistas!
E que dias…