segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Jokhang, a pérola tibetana...

Era chegado o grande momento... Após um dia de aclimatização, estávamos agora preparados para partir à descoberta de Lhasa, essa terra mítica que nos habituámos a admirar e a fantasiar à distância.
Aproveitando a localização estratégica do nosso hotel, a poucos metros do coração religioso do Tibete, partimos à descoberta do Barkhor, provavelmente o local mais sagrado do Tibete, onde milhares de peregrinos vindo dos quatro cantos do país acorrem para dar corpo à sua premente devoção religiosa que se sente e se respira a cada passo.

O Barkhor, é todo o percurso exterior e que envolve a joía da coroa, a verdadeira pérola tibetana: o templo de Jokhang.
Percorrendo uma das ruas laterais que nos leva ao percurso sagrado do Barkhor, começamos a tomar contacto com toda aquela parafernália religiosa e não só, composta essencialmente por moinhos de oração de todos os tamanhos e feitios, coloridas bandeiras de oração, que espalham a palavra de Buda nos céus de Lhasa ao sabor do vento, manteiga de iaque que serve de combustível às velas que ardem nos templos e muitos outros objectos de culto ou tradicionais da cultura tibetana.

Ficamos com a sensação, que neste pequeno percurso, percorremos todo o Tibete, tal é a profusão de etnias munidas do seu vestuário tradicional que podemos observar. Aqui a tradição ainda é o que era e ainda bem...

O que de melhor tem o Barkhor, é o facto de continuar a ser um local vivo em todos os aspectos. A chacina da cultura e religião tibetana, parece aqui renascer das cinzas e mostrar ao mundo que uma tradição milenar, não se apaga em meia dúzia de anos. É incrível a visão de milhares de peregrinos, com rostos sofridos e corpos sacrificados arrastando-se pelo percurso, no sentido dos ponteiros do relógio, tal como se faz em qualquer templo tibetano, cegos de obstinação e completamente desligados do que se passa à sua volta. Parecem trazer um mundo cheio de nada e no entanto a sua força e tenacidade marcadas em cada ruga das suas peles curtidas, parecem carregar a sabedoria suprema, de quem não tendo nada, nada mais precisa do que a sua própria espiritualidade.
Engolidos pela multidão de peregrinos, e envolvidos pelos mantras e pelos moínhos de oração, seguimos extasiados pelo Barkhor, impelidos por uma corrente espiritual intensa, surreal e mística que nos leva até à entrada do Jokhang.

Se até aqui tudo nos parecia irreal, a entrada do templo, conseguiu suplantar todas as expectativas. Enquadrado por 2 postes enormes repletos de bandeiras de oração acompanhados por duas piras que cospem o fumo do incenso colocado pelos peregrinos a eloquência da entrada do templo acenta na sua simplicidade e acima de tudo nos peregrinos.

Estes concentram-se numa realização de rituais acompanhados por uma ladainha de mantras repetidamente recitados que fazem entrar em transe quem os recita e quem os escuta.

A atmosfera que se respira aqui é de uma fé electrizante, que nos despe de preconceitos e nos faz mergulhar num inebriante caleidoscópio de sentimentos ampliados pelos sons, cheiros, cores e rituais que se praticam e que nunca vislumbrei em nenhum outro local.

Na entrada, a concentração de pessoas é enorme. Dezenas deitam-se no chão e levantam-se num ritual acompanhado de mantras que parecem trespassar-nos a mente e que nos deixa num estado algo confuso e que dá a sensação de flutuarmos por ali. Depois de alguma dificuldade em descobrir a entrada, seguimos para o interior do templo, passando por um enorme moínho de oração com uma fila imensa para ali realizar a sua oração.

O interior do templo é composto pelas típicas madeiras detalhadamente pintadas e pelas cores garridas de paredes e panos pendurados. Inúmeros altares de budas e outras divindades são adorados nos sucessivos pátios, que compões todo o complexo. Aqui vivem os lamas, que cuidam do templo e é assim que no meio de toda esta vida, entramos surpreendentemente em pátios e em pisos superiores onde deambulamos completamente sozinhos.



A vista é soberba! Os picos escarpados, convivem com a visão mágnifica do Palácio Potala, que sobranceiro a toda a cidade, parece querer subir ao céu.
Deixámo-nos ficar por ali algum tempo, absorvidos por todo aquele cenário, e entranhando todas aquelas emoções, que não sei se as voltaremos a sentir, mas que foram provavelmente as mais fortes que sentimos em viagem.

Após estes momentos tão intensos, seguimos pela praça para arranjarmos transporte para o mosteiro de Sera. Sera pertence à esfera de 4 mosteiros mais sagrados do Tibete, juntamente com o Jokhang, o Drepung e o Ganden.
O mosteiro de Sera chegou a albergar 5000 monges, sendo que hoje em dia alberga apenas algumas centenas.

Conhecer o Tibete, passa obrigatoriamente por conhecer os mosteiros, o centro nevrálgico da cultura tibetana, onde estão cimentados os valores educativos, culturais e sociais.

A cerca de 5 quilómetros de Lhasa, facilmente acessível de taxi ou autocarro, o mosteiro de Sera nasce a partir de uma artéria principal antes da entrada, que serve de mercado. Os edifícios, onde predomina o branco, vão subindo a montanha de forma mais ou menos anárquica e vão compondo o mosteiro com todas as suas capelas, dormitórios, cozinhas e todos as outras divisões necessárias a um complexo desta dimensão. Uns frescos enormes e coloridamente pintados, parecem observar-nos das arribas escarpadas das montanhas circundantes.

Vêem-se centenas de peregrinos, munidos do inevitável moínho de oração, percorrendo a Kora, o percurso sagrado do templo, só parando nos moínhos de oração fixos colocados em diferentes pontos do percurso, ou nas inúmeras capelas que se sucedem.

A madeira coloridamente pintada, está também muito presente. No interior dos templos ainda mais, não existindo um espaço por preencher. No interior dos templos, podemos também admirar os inúmeros panos igualmente coloridos, que se encontram pendurados e que emprestam a todo o ambiente uma atmosfera quente e reconfortante.

A manteiga de iaque, mantém as velas acesas nos altares e o seu cheiro torna-se bastante intenso. Podemos ver inúmeras notas nos mais variados locais deixadas pelos peregrinos em honra das divindades ou motivos religiosos que mais lhes agradam.

Também nós contribuímos, não tanto por motivação religiosa mas sim porque estas doações são o único dinheiro disponível, juntamente com o bilhete de entrada cobrado aos turistas, para a manutenção de todo o mosteiro. Sabendo que Mao dizia que "a religião é o ópio do povo", e que os chineses bem se esforçaram por destruir a religião do Tibete, não é plausível que o mosteiro receba alguma doação oficial pelo trabalho notável que faz em todos os aspectos da vida quotidiana dos tibetanos.

A visita foi bastante agradável, pelo próprio mosteiro e pela vista que vamos admirando à medida que vamos subindo a montanha. No topo chegámos à sala de debate, um espaço dedicado aos debates sobre vários temas (excepto políticos obviamente) e que reune inúmeras filas de monges alinhados que sobem ao palanque para discutirem e contribuirem com a sua opinião relativamente ao assunto em questão. Se o tema do discurso nos foi infelizmente ininteligível, já a beleza do folclore que envolvia a cerimónia não o foi e deixou-nos a esperança num futuro em que estes debates voltem a ser verdadeiramente livres como o foram no passado. Vamos esperar...

Depois de uma pausa para o almoço, onde um apetitoso e suculento naco de iaque nos acalmou o apetite voraz que toda aquela miscelânea de emoções nos tinha provocado, partimos para o nosso próximo destino o Norbulinka, o palácio de verão dos Dalai Lamas.

Almoçámos em Lhasa, após termos apanhado o autocarro, onde pudemos através da universal linguagem gestual, "pôr a conversa em dia" com alguns tibetanos que nos acompanhavam na exígua viatura que servia de mini autocarro.

O Norbulinka, fica nas imediações de Lhasa e fica por isso acessível a pé, mas a caminhada ainda levava uns 20 ou 30 minutos e como já tínhamos alguns quilómetros nas pernas, apanhámos uma simpática bici-táxi.

O Norbulinka é na realidade mais do que um palácio, são vários palácios, jardins e outros aposentos, que serviam de base de verão aos Dalai Lamas, que fugiam desta forma ao calor abrasador que se fazia sentir no Palácio Potala, desde sempre a residência oficial do Dalai Lama. Foi a partir de 1755 com o sétimo Dalai Lama que se iniciou a construção do palácio de verão. A partir daí e até ao actual Dalai Lama, o décimo quarto, foram sendo construídos mais palácios que iam acolhendo os novos residentes.

Não se pode dizer, que este complexo de palácios e jardins sejam fascinantes, já que a manutenção dos jardins e dos palácios não é muito cuidada, mas o passeio é agradável. Tivemos a sorte de apanhar um espectáculo de danças e musica tradiocional (talvez a ópera tibetana), que nos permitiu tomar contacto com a sua arte e admirar os trajes tradicionais (que na realidade não seriam muito diferentes do que já havíamos visto).
Nada no Tibete é luxuoso ou extravagante, por isso não se pode dizer que as expectativas tenham sido defraudadas. A magnificiência dos locais nunca está na obra mas sim na espiritualidade que esta carrega, transmitida pelo fervor religioso que os tibetanos lhe dão e que se transmite como uma força revitalizadora. Aqui não se sente essa energia, dado que não é um complexo religioso. Como local monumental, tem pouco a dizer, porque inclusivamente grande parte dos edifícios se encontram fechados. O palácio do décimos quarto dalai lama, será o mais interessante de se visitar, porque para além de possuir alguma informação interessante sobre a História do Tibete e de todos os Dalai Lamas, podemos ver os seus aposentos oficiais e pessoais.

O mais interessante desta visita, foi o passeio relaxante nos jardins e o contacto directo com inúmeras famílias tibetanas que aqui acorrem para passear.

Para terminar o dia, e como em Lhasa, os restaurantes são raros, fomos jantar a uma pousada, cujo restaurante vinha recomendado no lonely planet. A especialidade era imagine-se iaque burguer! Por mais que tentemos fugir da globalização, parece que ela nos vem sempre bater à porta! Se o McDonalds descobre isto, acabam-se os iaques no Tibete e no Nepal, porque estava muito bom. Uma experiência a não repetir é o chá de manteiga de iaque, tão apreciado pelos tibetanos. Manteiga derretida com sal misturado, não é própriamente assim, que apetece terminar o jantar...

Recolhemos ao hotel, tão cansados como felizes...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Chegada ao Tibete

Inebriados com as fantasias a que o tecto do mundo nos transporta, excitados com as experiências que pretendemos viver e expectantes quanto ao “mal de altitude”, saímos do avião prontos a exorcizar todas as dúvidas relativas ao Tibete.

Acompanha-nos um enorme manancial de informação recolhido ao longo dos últimos tempos, que nos talha o pensamento e nos intensifica a dor que passamos a partilhar com os tibetanos.

Somos recolhidos pelo guia obrigatório que nos foi imposto não nos deixando no entanto enganar pela pele escurecida e curtida pelos elementos agrestes e que é inegavelmente a fisionomia característica dos tibetanos. Já sabemos que inúmeros tibetanos “venderam a alma ao diabo”, por necessidade ou não, trabalhando para a nação “libertadora” a China.

Sendo uma zona politica e socialmente muito sensível, o turismo tem as suas particularidades. A presença policial é ostensiva e propositada em todo o Tibete embora o turista mais distraído possa não reparar que todos os seus movimentos são controlados por estes guias “amigáveis” que o levarão a ver o que as autoridades querem e não o que os turistas pretendiam.
Foi por isso que tivemos que “resolver” uma série de situações que nos queriam impor, mas que com alguma paciência, persistência e obstinação se tornam possíveis de contornar. Relativamente ao hotel, já o tínhamos feito, tendo de ser nós próprios a fazê-lo de Portugal, dado que o que pretendíamos estava sempre cheio quando o solicitávamos pelas vias oficiais. Nada que um telefonema e uns e-mails não resolvam. Impunha-se agora resolver a situação do guia, para que deambulássemos livremente por Lhasa e arredores, falando com os locais, sem qualquer restrição e deixando os nossos interlocutores à vontade.

Assim que travámos conhecimento com o “simpático” guia, fizemos questão em o alertar o quanto apreciamos a viagem independente! Sem papas na língua, transmitimos-lhe que o facto de ele estar ali connosco, não tinha sido escolha nossa, mas que nos tinham imposto a sua presença e o respectivo pagamento, facto aliás que muito nos desagradou. Ironicamente, comunicámos-lhe que iria ter umas férias pagas nos próximos dias, dado que dispensaríamos os seus serviços. O guia não ficou obviamente satisfeito com a situação mas pese embora a sua surpresa, percebeu rapidamente que a nossa posição era inegociável. O guia colocou uma série de entraves a esta situação, falando de impossibilidades legais e propôs uma série de excursões que recusamos educadamente. Segundo ele a visita ao Potala sem guia estava completamente fora de questão, dado que as forças policias estavam presentes em força e qualquer turista desacompanhado além de não poder entrar, criaria uma situação “muito difícil” ao guia responsável por eles. Embora não acreditássemos nestes argumentos, também não o queríamos deixar em maus lençóis e afinal uma negociação é isso mesmo, concessões de parte a parte e no fundo, pareceu-nos um pequeno preço a pagar pela grande liberdade que já estávamos a conquistar!

Não acabámos esta “negociação” sem antes deixarmos bem claro, que após a entrada no Potala, nos abandonaria, deixando-nos a sós na magnificiência do local, numa visita que esperávamos com imensa ansiedade. Acordo firmado! É tempo agora de ficar “perigosamente” à solta para o contacto autêntico com as pessoas e a arte cultural e essencialmente religiosa tibetana!

Todo este episódio, se passa na ligação do aeroporto para a cidade, e apenas foi interrompido por uma pausa no caminho para admirar-mos uns gigantescos frescos pintados na rocha, cobertos por milhares de katas, os tradicionais lenços tibetanos que servem como oferendas religiosas e sociais. Também nós já vínhamos munidos da nossa kata que nos fora oferecida em sinal de boas vindas na chegada ao aeroporto.

Ao longo dos cerca de 70 quilómetros que separam Lhasa do aeroporto, nas novas estradas abertas pelos chineses, assistimos à eloquência da paisagem, tão bonita quanto agreste, dominada pelos imponentes picos escarpados, talhados suavemente pelo rio Ky Chu durante milénios, na ânsia de entregar aquela fonte de vida a todo o sudeste asiático.

Ao chegar a Lhasa, é com dificuldade que seguramos uma lágrima de emoção que teima em formar-se ao canto do olho ao depararmo-nos com a imponência extrema e a beleza aterradora do palácio Potala, que sobranceiro a toda a cidade parece querer subir a montanha e tocar o céu!

Não podia ser mais emocionante a entrada em Lhasa, embora a visão seguinte, nos mostrasse a cega e selvagem colonização chinesa que em nada se parece com a tradicional cultura tibetana.

Mais tarde teríamos a oportunidade de ver o quanto os chineses estragaram aquele oásis de beleza plantado no topo dos Himalaias.

O hotel era fantástico! Tipicamente tibetano, onde a madeira coloridamente pintada nos aquece a alma ao estilo dos seus templos budistas!

Após quase desmaiarmos ao subir o primeiro lance de escadas, os 3650 metros de altitude, começavam a pregar-nos umas partidas, fizemos o que já estava planeado: descanso total no que restava do dia, sabendo que necessitávamos daquele tempo para uma perfeita adaptação à altitude, deixando o nosso corpo produzir uns milhões de glóbulos vermelhos, acalmando os sintomas de embriaguês que já começávamos a sentir e preparando-nos para os dias que seguiam.

E que dias…

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Tibete, magia e misticismo.

Um país? Uma região? Um pedaço de céu? O Paraíso na terra? Uma religião?

Tantas perguntas e tantas fantasias envolvem este lugar que não sabendo ao certo defini-lo, sei no entanto que está carregado de misticismo, mistério e magia. Antes de entrar, imagino um lugar sobrenatural onde tudo pode acontecer. O seu isolamento e indiferença pelo resto do mundo criou uma onda de curiosidade por esta terra e este povo, que imagine-se não se interessavam pela riqueza, pelo materialismo e pela ganância!

Queriam apenas viver e foi exactamente isso que não os deixaram fazer.

Antes de entrar no País, sim para nós é um País, tínhamos, nós e os tibetanos, já algo que nos unia: o desejo do Tibete LIVRE !!!

É impossível esquecer o manancial de informação retida após horas de leitura de inúmeros livros (Sete anos no Tibete, As papoilas vermelhas, A vida do Dalai Lama, Uma vida pelo Tibete…), revistas, documentários e nas pesquisas feitas na Internet.

Não esquecemos também as dificuldades impostas na obtenção do visto especial para o Tibete (região de Lhasa, existem variadíssimos vistos para a região do Tibete). É especialmente difícil se formos viajantes independentes, como era o nosso caso, porque algumas vezes, pura e simplesmente não é dado o visto.

A marcação do hotel também não foi fácil, porque nos queriam colocar à força num hotel chinês e nós já tínhamos obviamente escolhido um hotel tibetano. Estas dificuldades tipicamente chinesas, aumentam a sensação de entrar num local proibido, onde a disciplina é imposta à força e onde os turistas não são bem vindos (só pelos chineses claro).

Falar sobre temas políticos ou mesmo religiosos não é permitido. É proibida a posse de fotografias do Dalai Lama ou da bandeira do tibete. Não adianta falar com os locais, dado que muitos, para não dizer quase todos os locais que têm contacto com os turistas, embora sejam tibetanos, estão completamente controlados pelos chineses.

Relativamente aos poucos monges budistas que hoje se encontram nos míticos mosteiros do Johkang, Sera, Drepung ou Ganden, aplica-se a mesma receita. Após a “libertação” chinesa (como estes lhe chamam), todos os mosteiros foram amplamente destruídos assim como todos os símbolos e locais sagrados budistas. Milhares de monges foram mortos sem apelo nem agravo e a religião proibida.

Existe polícia em todo o lado, e o medo parece sair da alma dos tibetanos. Os tibetanos tornaram-se minoritários no seu país. 6 milhões contra os 8 milhões de chineses que foram deslocados para a região. Por isso no ridículo em caso de eleições, ganharia a vontade chinesa! Todo o comércio e atentados arquitectónicos na cidade de Lhasa são da responsabilidade dos chineses, que para além da sua vontade de expansão, souberam avaliar as riquezas minerais e naturais existentes no Tibete. Ouro, Petróleo e 80% de todo o abastecimento de água doce ao sudeste asiático. Aqui nascem os maiores rios asiáticos: o Mekong, o Bramaputra o Yangtsé e o Indo.

Sua santidade o décimo quarto Dalai Lama (Tenzin Gyatso), é o chefe de estado do governo tibetano no exílio e tem passado toda a sua vida deambulando pelo mundo espalhando a sua bondade e inteligência entre o mundo cínico e hipócrita que nos rodeia e espantando-nos a todos com a sua bandeira da não violência.
Seria impossível explicar todas as atrocidades por que passaram aquelas gentes nas mãos do regime comunista chinês. Não é difícil adivinhar o número de mortos naquele local inóspito, longínquo e arredado de qualquer tipo de meios de comunicação, que proporcionam um refúgio ideal para a carnificina e genocídio das pessoas, das tradições e da cultura tibetana, que está condenada a desaparecer para sempre naquele território.

A esperança reside em Dharamsala (na Índia), onde se encontram mais de 100000 tibetanos no exílio, juntamente com o Dalai Lama após terem conseguido em épicas viagens atravessar a fronteira para se juntar aos seus irmãos e continuar um trabalho altamente meritório, que preserva a cultura tibetana apoiada em inúmeras escolas, creches e orfanatos erigidos numa montanha de dificuldades.

Foi nesta miscelânea de sentimentos, onde a magia convive com o terror, e na ignorância da nossa resistência à altitude que entrámos no Tibete. A expectativa era enorme e não seria defraudada…

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Chengdu, na terra dos Pandas!

Um dos principais motivos da nossa passagem por Chengdu, já o dissemos, era o facto de podermos tomar contacto com um dos mais emblemáticos animais à face da terra. Os pandas gigantes.

Era para nós um verdadeiro “highlight” de viagem por vários motivos: Para além do panda ser um animal que todos gostam pelo seu aspecto bonacheirão e comportamento brincalhão, o verdadeiro motivo que o torna tão especial, é por estar (ou ter estado) à beira da extinção e por só existir nesta região do Mundo.

Neste momento, apenas existem 1000 Pandas em liberdade e mais alguns espécimes em cativeiro. O Homem sendo um dos principais responsáveis pela sua quase extinção, não é o único. O próprio panda, por força do seu estilo de vida, alimentação e fraca reprodutividade também tem a sua quota parte de responsabilidade. Das toneladas de bambu que come anualmente, apenas consome 20 das 300 espécies de bambu existentes. Passa 14 a 16 horas por dia a ruminá-lo devido ao seu fraco poder calórico. Tem uma época de acasalamento curta e parece que é bastante selectivo na escolha da sua companheira. Para além disto, as fêmeas apenas dão à luz uma cria e nos casos raros em que nascem duas, normalmente uma delas é posta de lado. As crias não pesam mais do que uma maçã, o que leva a que numerosas vezes se sucedam alguns acidentes como esmagamentos durante o sono, etc.

Tudo isto somado, leva a que o relativo sucesso da preservação desta espécie seja simplesmente a manutenção dos números existentes.

O centro de pesquisa do panda gigante nos arredores de Chengdu, tenta contrariar essa tendência, com 40 animais residentes, tenta aumentar a reprodutividade dos Pandas e aumentar as probabilidades de sobrevivência das pequenas crias.

Foi este centro que quisemos conhecer e onde entrámos após uma curta viagem de 10 Km. A melhor hora para visitar o centro é de manhã cedo, quando os pandas são alimentados, visto que tirando esta altura, os pandas estão empenhados no seu hobbie preferido: dormir!

O local é fantástico para um passeio e para fazer uma pausa da poluição e caos das cidades chinesas. Fica localizado numa extensa floresta de bambu, claro está, e como bónus existe um bonito lago com uma casa de chá na margem!

Ao contrário de alguns locais por onde passámos, aqui todas as indicações e explicações dos vários locais, museu incluído, estão também em inglês, o que parecendo que não… facilita!

A excitação de ir ao encontro dos pandas era grande, e a ansiedade de avistar o primeiro, impelia-nos a andar cada vez mais depressa. O local embora fosse paradisíaco, especialmente para mim que sou um aficionado do bambu gigante, começava a deixar-nos desiludidos, é que naqueles amplos espaços, só víamos… bambu. Por fim lá avistámos um ponto preto e branco, que nem com o zoom no máximo conseguíamos distinguir as feições! Mas era apenas a ansiedade de querer ver tudo no primeiro minuto, porque alguns instantes depois, lá chegávamos a um local designado por “parque infantil dos pandas gigantes”. E aí, tirámos a barriga de misérias.

Era a hora da alimentação, e o caos estava instalado! Aquele local onde 10 ou 15 peluches gigantes tinham ganho vida, era de facto inenarrável. Os pandas têm duas características que os tornam especialmente atractivos: são bonitos e desajeitados. As suas reacções e relações mútuas, provam que existem pontos a favor na teoria do caos! Os momentos proporcionados, são capazes de arrancar comentários do tipo “olha que os bichos até são engraçaditos” aos mais sisudos dos visitantes.
Após algumas pseudo batalhas em câmara lenta, alguns tombos e habilidades falhadas, já estávamos perfeitamente apaixonados pelos pandas. Ficámos largos minutos ali, a observar aquele “filme”, comovidos com mais uma obra prima com que a Natureza resolveu presentear a Humanidade.

“É por isto que vale a pena Viajar!”. Eram estes pensamentos que em silêncio nos assaltavam enquanto continuávamos a nossa visita. Para além do museu simples mas esclarecedor e dos variadíssimos espaços por onde os pandas vão sendo distribuídos consoante o seu estado de desenvolvimento, tivemos oportunidade de ver uma cria minúscula e de pegar ao colo um panda bebé. Relativamente ao segundo, só tivemos a oportunidade porque não chegámos a fazê-lo por duas razões: ou melhor, por uma, é porque era caro! 1000 Yuans, visto assim, são apenas 100 euros, mas na altura pareceu-nos uma fortuna e para além disso, assaltou-nos a ideia, se seria o melhor para os pandas, que uma trupe de japoneses e 2 lusos, andassem para ali a “chatear” os bichos!

Ao longo da visita e certos que os pandas recebem ali o melhor tratamento possível, não podemos deixar de notar alguma precariedade de algumas jaulas, com espaços demasiado confinados e claustrofóbicos. Não nos podemos esquecer no entanto do nível de vida chinês…

Os parentes pobres do parque são os pandas vermelhos, que não gozam da popularidade dos seus primos a preto e branco. No entanto esta discriminação não se faz sentir nas suas instalações.

Saímos do parque com o optimismo natural de quem vê projectos válidos e sustentados de apoio à natureza e confiantes que melhores dias virão para esta espécie ameaçada. Assim esperamos...

Estava na hora de voltar ao templo de wenshu, que estava fechado no dia anterior e aproveitar a ocasião para almoçar naquele bairro fantástico que o rodeia. Foi o que fizemos. Após um almoço típico chinês, lá partimos rumo ao templo budista que nos é sempre inspirador. Nada de especial a apontar ao templo para além do ambiente sempre positivo e regenerador que parece ser parte integrante de qualquer templo budista.

O que é de registar é o bem cuidado parque, onde vários transeuntes vêm "passear" os seus pássaros domésticos em rústicas gaiolas que ficam penduradas nas árvores enquanto os seus donos se embrenham numa disputada partida de mahjong.

Na continuação do parque, uma casa de chá dá continuidade à mistíca do lugar com litros e litros de àgua que vão correndo dos enormes bules metálicos dos empregados num contínuo vai e vem para encher e dar vida às folhas verdes da planta do chá, dos crisântemos e de tantas outras essências que por ali se sentiam.

As casas de chá funcionavam na China como um local de encontro social e onde para além da conversa, dos jogos e obviamente do chá, se aproveitava o local para algumas necessidades básicas como fazer a barba, cortar o cabelo ou.... limpar os ouvidos! Sim, em pleno século XXI, parece que ainda se preservam algumas tradições...

O nosso dia estava ganho, Chengdu também ganhou algum estatuto e deixou de ser apenas um local de passagem para o Tibete. A nós restáva-nos aproveitar a beleza e o misticismo daquela casa de chá perdida no templo, para entre repetidas chávenas de chá, apurarmos os nossos sentidos para recebermos em pleno toda a magia que o Tibete nos reservaria...

Chengdu, Sichuan

Chengdu, não estará nos percursos mais óbvios realizados na China, e embora isso só por si já seja um ponto a favor, para nós Chengdu, representava 2 grandes objectivos de Viagem: a ligação a Lhasa no Tibete e a aproximação aos pandas, esse animal simbólico adoptado pelo WWF como símbolo da preservação das espécies e que habita apenas em duas províncias chinesas: Sichuan e o sul de Shaanxi.

Ao planearmos a viagem, tínhamos decidido que visitaríamos a reserva natural de Woolong a cerca de 150 quilómetros de Chengdu, onde os pandas vivem em absoluta liberdade. Mas após alguma pesquisa, chegámos à conclusão que o mais provável era visitarmos uma bonita floresta de bambu e pandas nem vê-los! Assim sendo, o nosso contacto com os pandas seria feito no centro de pesquisa e desenvolvimento de pandas nos arredores de Chengdu. Este centro, que conta com um sucesso relativo na preservação desta espécie, possui um amplo parque do tipo jardim zoológico, mas onde ao contrário do que é habitual, os animais estão em primeiro lugar. Amplos espaços recriando o seu habitat natural, albergam os pandas tornando por vezes em alguns deles impossível a sua observação. Muitos espaços fecham consoante as necessidades dos pandas: épocas de acasalamento, gravidez, etc… Está bem feito, mas quanto a este parque já lá iremos…

Quando chegámos a Chengdu, informaram-nos que esta era uma pequena cidade de 4 milhões de habitantes!!! A entrada na cidade no percurso do aeroporto até ao hotel, mostrou-nos que estávamos certos. Pandas e Tibete, não há nenhuma razão suplementar para visitar Chengdu. Ficaríamos no entanto surpreendidos…

Arranha-céus a perder de vista, mostravam-nos a face da nova-China, onde a modernidade é plantada à força, empurrando o exotismo e ritualidade que parecem envergonhar os chineses para os cantos mais recônditos e que tanto atraem as almas ocidentais sempre em busca das vestes em seda colorida, chapéus em bico e riquexós frenéticos.

Depois do ritual do costume na chegada ao hotel, partimos para um almoço tardio onde decidiríamos o que fazer no que restava da tarde. O que nos pareceu mais acessível e interessante, foi uma visita ao templo de Wenshu, um agitado templo budista da dinastia Tang, segundo a descrição do guia. A referência a 2 casas de chá no templo, retirou-nos todas as dúvidas e foi para lá que partimos, porque a tradição de 3000 anos do chá nesta região não é de menosprezar!

Chegados ao templo, uma meia desilusão. O templo já estava fechado, mas em contra-partida, a zona envolvente era o oposto da descrição de Chengdu! Tínhamos à nossa frente, um amplo bairro tradicional, com as típicas casas em madeira e os seus pátios bem cuidados, onde restaurantes, pequenos comércios e casas de chá, faziam a delícia dos transeuntes.

Um verdadeiro achado! Nada melhor, do que quando não temos qualquer expectativa e somos presenteados com uma verdadeira pérola! A não perder. Percorremos o bairro de lés a lés, desfrutando de umas chávenas de chá e de umas compritas pelo caminho. Ao templo voltaríamos mais tarde, porque sem dúvida valeria a pena!