domingo, 24 de fevereiro de 2008

Pequim, o primeiro dia

Após algumas horas de viagem, na companhia finlandesa Finnair, com uma oportuna escala em Helsínquia, aterrávamos em Pequim. Um aeroporto monumental ainda em obras para receber aquele que é neste momento um verdadeiro desígnio e orgulho nacional chinês: Os Jogos Olímpicos de Pequim 2008.

Tínhamos 4 dias completos para conhecer Pequim, que não sendo suficientes para conhecer em detalhe uma cidade com 14 milhões de habitantes e com a riqueza cultural de Pequim, eram no entanto suficientes para conhecer aqueles que são os pontos mais interessantes.

Fruto de experiências anteriores, já aprendemos a controlar um bocadinho o jet leg e por isso mesmo, não nos rendemos ao cansaço natural e após uma rápida passagem pelo hotel para deixar as malas já nos encontrávamos prontos para deambular pelas ruas de Pequim.

A ansiedade de ir ao encontro de mitos e lendas chinesas e de encontrar aquelas imagens que povoam o nosso imaginário carregadas de cor e exotismo, empurravam-nos a todo o momento para os locais que tínhamos aprendido a venerar mesmo antes de os conhecer. Basta pensar que Pequim é a capital dinástica chinesa desde o século XIII, onde reinaram dezenas de imperadores autoritários ou ausentes, perversos ou puritanos, mas sempre rodeados de faustosas cortes que inebriavam qualquer reino à face da terra.

Pequim viu Ghengis Khan e o império Mongol, o maior e mais poderoso jamais visto à face da terra. Viu Marco Pólo nas suas deambulações e sucessivas embaixadas. Viu Fernão Mendes Pinto como prisioneiro na sua inigualável Peregrinação, viu a Dinastia Qing e a dinastia Ming a acabar com o último imperador Pu Yi, magnificamente retratado no filme de Bernardo Bertolucci. Viu as civilizações Ocidentais a explorarem as suas entranhas e viu também Mao Tsé Tung e as suas particularidades que ainda hoje são seguidas a contra gosto pela maioria da população e principalmente pelo partido comunista chinês.

Era por tudo isto que aqui estávamos, foi por tudo isto que fomos atraídos e era por tudo isto também que nos instalámos num hotel localizado num hutong (os antigos bairros de Pequim). O hotel estava impregnado de história ou não fosse ele uma tradicional casa chinesa recuperada onde não faltavam sequer os famosos pátios interiores com as gaiolas penduradas nas árvores.

Saímos em direcção ao centro da cidade. A cidade proibida era o nosso destino e passados poucos metros, já tomávamos consciência do que é o verdadeiro comunismo. Um enorme arranha-céus com ostensivas indicações do Banco da China apresentava na sua base o maior stand da Ferrari que já vi na vida! Viva o comunismo!

Como começávamos a ver como funcionava o comunismo, aproveitámos logo o local para levantar os nossos primeiros yuans. Não entrámos no stand, porque não somos ostensivos e continuámos rumo ao nosso objectivo.

Passados poucos instantes, começámos também a perceber que Pequim é de uma dimensão avassaladora: são mais de 16000 Km2, aproximadamente o tamanho da Bélgica! Nós escolhemos um hotel localizado bem no centro da cidade e olhando para o mapa era-o de facto, mas a realidade mostrou-nos que o “centro” ficava a pelo menos 1 hora a pé. Aprendemos que em Pequim se apanha um táxi para todo o lado. É que as distâncias não são para brincadeiras, ainda mais quando acompanhadas por temperaturas a rondar uns “simpáticos” 40ºC.

A curta viagem mostrou-nos avenidas monumentais e rectilíneas, centros comerciais por todo o lado, arranha-céus intimidadores e um trânsito caótico. A cidade está em ebulição e dá a sensação que ninguém quer perder o que aqui se passa, motivo pelo qual encontrávamos a cada canto representações de multinacionais de todo o mundo.

Chegámos à cidade proibida. Na frente da entrada principal, estava nada mais nada menos que a maior praça do mundo: Tiananmen. Foi inevitável lembrar as imagens que correram mundo com o jovem estudante chinês a desafiar corajosamente um tanque do exército que o mataria poucos instantes depois. Na luta pelos seus ideais, morreram milhares de estudantes nas manifestações de 1989. Acreditavam na mudança política do seu país, mas continua a imperar o livro vermelho do Mao.

Tiananmen é a maior praça pública do mundo. Quando chegámos, preparavam-se as comemorações da aproximação aos jogos olímpicos, faltava exactamente 1 ano nesse dia e a praça estava praticamente fechada. Voltaríamos mais tarde.

Na entrada da cidade proibida e entre as muralhas vermelhas com as suas torres em estilo de pagode, sobressaía a gigantesca imagem de Mão Tsé Tung. As feições de avozinho bonacheirão quase faziam esquecer as atrocidades por que fez passar o povo chinês onde em apenas num ano e fruto das suas políticas completamente alienadas fez morrer à fome 50 milhões de pessoas. Mais do que em toda a II guerra mundial!

Como todos os locais históricos de Pequim, a cidade proibida impressiona quer pela sua dimensão quer pelo misticismo que impregna as suas paredes.
Outra surpresa para nós, foi verificar que a percentagem de turistas ocidentais era mínima. Estavam milhares de pessoas lá dentro, mas maioritariamente, turistas chineses. Fez-nos pensar, que com o crescimento do país e quando a condição financeira dos chineses for mais favorável, esperam-nos verdadeiras invasões de turistas chineses na Europa.
À entrada, surpresa das surpresas, existia um audioguia em Português! Lá entrámos no gigantesco complexo de pavilhões e praças que nos lembraram porque é que o local é designado por “cidade”. Aqui viveram poderosos imperadores rodeados do seu séquito de mais de 10000 servos, passando por vezes toda a sua vida no interior das muralhas.

Os chineses possuem uma especial apetência poética para dar nomes às coisas. Penso inclusivamente, que essa é uma das razões, pelas quais existe um exotismo muito próprio na cultura chinesa. Quando ouvimos falar as suas designações, a nossa imaginação fruto desta poética abordagem das coisas, cavalga a galope. Acho que hoje em dia se diria que os chineses eram especialistas em “Marketing”!

Se não vejamos: Porta da paz celestial, Porta do divino génio militar, Porta da suprema harmonia, Palácio da pureza celestial, Palácio da Primavera eterna, são apenas alguns exemplos que podemos encontrar na cidade proibida.

Convenhamos, que as expectativas ficam altas…

Mas não nos podemos queixar, a cidade proibida é um extraordinário complexo de palácios, praças, pavilhões, jardins e muito, muito mais. Existe espaço mais do que suficiente para acolher os milhares de pessoas, que se perdem meio extasiados nos séculos de História a que este local nos transporta. A arquitectura e o fausto são tudo aquilo que esperávamos. É apenas… maior!

Os telhados em forma de pagode assentavam na perfeição nas enormes estruturas de madeira pintadas de vermelho vivo. Magnificas pinturas de cores vivas sobressaíam na madeira trabalhada, muitas vezes na forma de figuras bizarras e míticas que povoam o imaginário popular chinês. Entalhes dourados, rasgam fachadas e portões, conferindo-lhes uma altivez difícil de descrever.

As balaustradas dos sucessivos terraços estão decoradas com milhares de pináculos de mármore estendendo-se ao longo das enormes praças, que na era imperial chegavam a acolher mais de 100000 pessoas nos discursos do imperador.

Várias exposições ao longo dos muitos pavilhões lançam-nos na riquíssima história chinesa. Desde os artefactos utilizados em diferentes épocas aos diferentes trajes do imperador até aos objectos de uso diário, verdadeiras relíquias para a época. Temos oportunidade de ver também as várias salas que compunham a corte, bem como o trono do imperador desta feita sem o fausto que apresentaria à época.

Para acabar a visita, várias horas depois, nada melhor que um passeio nos jardins onde imagino que alguns funcionários devem ter passado um mau bocado para satisfazer as extravagâncias dos vários imperadores e imperatrizes.

Tentámos sair de novo pela praça Tiananmen, mas já estava fechada para as comemorações dos Jogos Olímpicos. O dia para nós já ia longo e estava na hora de experimentar o prato mais famoso da cidade: o pato lacado à Pequim. É tratado como uma verdadeira iguaria e vários restaurantes se intitulam com o epíteto do “melhor pato à Pequim”. Nós queríamos ir ao mercado nocturno de Donghuamen e foi para lá que nos dirigimos. Quando chegámos, já algumas bancas se preparavam para servir algumas verdadeiras pérolas gastronómicas, mas já lá iremos a esse momento que constitui para nós um verdadeiro highlight de Viagem!

Antes procurámos um restaurante nas traseiras das várias barraquinhas do mercado, e lá fomos comer o desejado pato. O pato é confeccionado, injectando óleo a ferver entre a pele e a carne, conferindo-lhe aquele tradicional aspecto do pato lacado. A pele estaladiça é aliás o mais apreciado entre os locais, sendo servida à parte do resto. O pato estava delicioso e resolvemos colmatar a refeição com um belíssimo chá de crisântemos!

Em seguida, fomos explorar o famoso mercado nocturno que nos presentearia com algumas imagens que ainda hoje tenho dificuldade em apagar da memória. É certo que sabíamos do exotismo da gastronomia asiática em geral e da chinesa em particular. Já tínhamos inclusivamente contactado com alguns pratos “exóticos” no sudeste asiático, mas aqui a “qualidade” e quantidade destes “condimentos” era verdadeiramente avassaladora!
Uma enorme excitação assaltou-nos quando começámos a ver umas espetadinhas de bichos-da-seda, escorpiões, gafanhotos, estrelas-do-mar, cavalos-marinhos, pequenos lagartos e uma quantidade de outros insectos difíceis de descrever!!! Felizmente, não se confirmaram as referências a cães…
E quando estávamos nós ainda a tentar controlar a nossa incredulidade “Ah isto é só para turista ver!” eis que aparecem uns esfomeados chineses que pedem várias espetadas e as comem ali mesmo entre comentários de uma turista tão incrédula como nós “estes chineses são doidos não são?”. Acenámos em sinal de aprovação, mas nem assim conseguimos retirar a satisfação estampada na cara daquele casal de chineses!
É caso para dizer que se confirma o famoso ditado que diz que os chineses comem tudo o que se move…

Sentindo que o dia já ía longo e que já eram muitas as emoções vividas, apanhámos uma espécie de tuk tuk, que nos levou ao nosso hotel. Era tempo para interiorizar as muitas experiências vividas durante o dia.

E ainda mal tinha começado…

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Viagem à China, Tibete e Malásia

Em Agosto deste ano fomos até à China, ao Tibete e acabámos na Malásia para um relaxante mergulho no Índico.

Esta era para nós uma viagem que culminava o primeiro ciclo Asiático. Depois das Maldivas, Indonésia, Singapura, Tailândia, Birmânia e Cambodja, esta viagem era para nós a cereja no topo do bolo!

Para mim a maior expectativa era o Tibete, ou melhor Lhasa, visto que o exíguo período de férias não nos dava mais tempo para aquela que é uma das pérolas asiáticas. A China era um sonho antigo, provavelmente a única civilização primária do mundo moderno, só comparável com o Antigo Egipto, os Incas Maias, Aztecas ou a Roma e Grécia Antiga. É a única civilização do mundo antigo que subsiste e o património que restou chega e sobra para impressionar o mais céptico dos cépticos.

A China é provavelmente o país mais falado na actualidade, por força de todos os números extravagantes que apresenta, quer seja em termos de crescimento económico, população, área, antiguidade, censura, sentenciados à pena de morte, pobreza extrema, revolução industrial, poluição…

Por tudo isto os sentimentos eram vários e a expectativa enorme!

Esperávamos o melhor e o pior. As opiniões recolhidas e a vasta investigação prévia davam-nos um manancial de informação difícil de digerir. Mas uma coisa era certa, veríamos verdadeiros marcos do mundo antigo e moderno.

Maravilhas como a grande muralha, a cidade proibida, o templo do céu ou os cavaleiros de terracota. Veríamos a mística paisagem rural chinesa. O património natural com os Pandas à cabeça e ainda verdadeiros pedaços de história e misticismo como o Potala ou o Jokhang em Lhasa. Sobravam ainda uma réstia de orgulho nacional com a visita a Macau e o cosmopolitismo de Hong Kong e Kuala Lumpur. Para acabar nada melhor do que voltar às praias tropicais a sério. Não daquelas enganadoras como as muitas que se vêem em revistas de viagem e que nos reservam uma grande decepção à chegada (como já nos aconteceu). Aqui era garantido. Falo de Redang e valeu a pena!!!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

A Birmânia nos livros

Aqui ficam 2 sugestões para quem quer visitar ou quer recordar tempos vividos na Birmânia.

"O afinador de pianos" de Daniel Mason, transporta-nos para a Birmânia colonial, sobre o domínio britânico. As descrições das cidades e vilas, bem como os percursos realizados de barco, apresentam muitas semelhanças com o que continua a existir hoje em dia.








"Sonhos que o vento levou" de Mafalda Gameiro, conta-nos 2 histórias reais onde a distância física, não disfarça a incrível proximidade que existe na vivência destes 2 povos. Os curdos, a maior nação sem pátria do mundo. são mais de 40 milhões de pessoas, "entaladas" nas montanhas entre a Turquia e o Iraque e que sofrem diariamente e ao longo de inúmeros anos as maiores atrocidades. Este livro conta-nos a história de um jovem que adere ao PKK o partido trabalhador curdo de libertação.





Mais para leste, na Birmânia, temos a história de um homem, que encontra uma possível saída para os problemas que o facto de ser católico numa nação budista lhe coloca, quando a execrável junta militar que governa o país se mostra intolerante com todas e quaisquer diferenças daquela que é a sua ideologia.




São 2 histórias reais e distintas com imensos pontos em comum, sendo o mais improvável deles o facto de estas pessoas viverem presentemente em Portugal.


Existem ainda que conheça, "Burmese Days" de George Orwell e "Do outro lado do Mundo" de Laura Vasconcellos.

Ainda não tive a oportunidade de os ler mas já estão na calha...

domingo, 13 de janeiro de 2008

Guia de Viagem da Birmânia

Eu sou um fã incondicional dos guias Lonely Planet, em todas as viagens que fiz, socorri-me sempre (ou quase) destes guias e raramente me decepcionaram. Ideal para viajantes independentes.



quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Lago Inle

O final de tarde foi bem passado na nossa varanda sobre estacas. O pôr-do-sol acentuava a beleza do lago nas constantes mudanças de cores e contrastes. Depois, deambulámos pelo hotel pelos vários locais aprazíveis que pareciam multiplicar-se, acabando num clímax de gastronomia local, no restaurante do hotel.

Ainda embevecidos com todas as experiências recentes, e com os 5 sentidos bem mimados, acordámos num misto de alegria e tristeza. Por um lado a expectativa após tudo o que víramos era enorme, por outro, esperava-nos o último dia na Birmânia!

Mas ainda muito se havia de passar… Para começar a manhã, à custa de um pequeno truque utilizado por nós, que nos torna recordistas de luas-de-mel, ficámos com a melhor mesa do pequeno-almoço. Na varanda entrecortada sobre o lago, calhou-nos a parte mais avançada, e a sensação era a de estarmos na realidade “dentro” do lago! Embora nebulado, o dia apresentava uma luminosidade forte e carregada que realçava o contraste entre as cores escuras do lago e o verde viçoso da vegetação circundante. A vista era magnífica e as canoas que se aproximavam de nós remadas “à perna”, tornavam-na surreal!

A excitação e a ansiedade apoderavam-se de nós à medida que víamos a nossa guia aproximar-se do cais numa canoa típica da zona. Embora soubéssemos parte do roteiro que realizaríamos nesse dia, sabíamos também por experiência própria, que a Birmânia não se contentava apenas em nos agradar. Teimava em nos surpreender, dando-nos sempre mais do que alguma vez ousaríamos pedir.

Foi neste estado de alma que embarcámos e partimos à descoberta da terra, ou melhor, da água, que constitui esse paraíso do povo intha.

Percorremos alguns estreitos canais, onde observámos as actividades primárias que satisfaziam as necessidades básicas daquelas pessoas. As sempre impressionantes ilhas flutuantes que albergavam as plantações de tomates ladeavam os canais, demonstrando a sabedoria milenar daquele povo. Algumas canoas rudimentares, praticamente o único meio de transporte dos locais, carregavam a simpatia destas pessoas que entre um sorriso sincero e um tímido aceno, balbuciava um encantador mingala ba !, - olá !


A paisagem continuava a surpreender-nos. As casas construídas sobre estacas dependuravam-se sobre o lago parecendo querer espreitar os místicos templos semi-abandonados que impregnavam a atmosfera de uma religiosidade fervorosa e sempre presente. Mulheres e crianças espontâneas e inocentes, banhavam-se no lago ou lavavam as suas roupas junto à margem. Homens carregados, sulcavam as margens, transportando o sargaço para adubar os tomateiros plantados nas não menos surpreendentes ilhas flutuantes. Tudo isto nos parecia irreal, mas havia mais…


Continuando o nosso caminho, desembocámos no coração do lago, onde altares budistas com incenso a perfumar a atmosfera, despontavam das águas plácidas. Pescadores que pareciam estar ali há milhares de anos mergulhavam as suas redes colocadas numa armação elíptica de bambu, na esperança de almoçar nesse dia ou de trocar esse precioso peixe no mercado local por um pouco de carne e de arroz.

Sentindo a brisa fresca na cara, prosseguimos até entrar de novo num estreito circuito de canais onde as cenas do quotidiano se repetiam. Mais um aceno retribuído para os pequenos monges que se banhavam naquelas águas e seguimos para viver um verdadeiro momento “Indiana Jones”. No meio da densa vegetação, surgiam stupas perdidas no tempo, que nos lembravam que este lago já era habitado de longa data. Saltámos para a margem e partimos à descoberta daquele templo que mais tarde soubemos tratar-se do Shwe Inn Thein.

O avançado estado de degradação da estrutura parcialmente abandonada, acrescentava algum misticismo ao local e o facto de estarmos sozinhos, provocava-nos a ilusão de sermos os primeiros a passar por ali. Tornámo-nos obsessivos com todos os pormenores porque de alguma forma queríamos gravar todos os momentos na nossa memória.

Depois de percorrermos uma considerável extensão, onde a vegetação se confundia com as stupas abandonadas, chegámos ao edifício principal do templo. Esta ala encontrava-se activa e alguns vendedores locais tentavam atrair-nos com o seu artesanato no corredor que lhe dava acesso. Embora activo, não se pode dizer que esta parte do templo estivesse propriamente preservada, mas com os escassos recursos que possuíam, e com as doações dos poucos turistas que visitavam o local conseguiram “lavar-lhe a cara”.

A simpatia continuava a imperar e alguns monges convidaram-nos para almoçar com eles. O desejo até era grande mas um rápido olhar para as possibilidades do almoço e uma lembrança súbita da dezena de possíveis doenças que esta interessante experiência nos poderia causar, levou-nos à sensata decisão de recusar educadamente o convite. Dada a insistência dos monges, fomos obrigados a aceitar umas bananas e um género de doce, que embora tenhamos provado não chegámos a perceber o que seria.

Continuámos o percurso com a guia que se nos juntou e caminhámos por caminhos de terra batida, ladeados por uma selva de bambus gigantes, onde pelo que parece se “colhia” um pitéu bastante apreciado nesta zona. Aliás não era só nesta zona, dada a qualidade grande parte era exportada para China, onde pelo que percebemos era considerada uma verdadeira iguaria. Falo obviamente das larvas do bambu. Umas anafadas larvas brancas que se desenvolvem no interior das secções da cana de bambu. Quase todas as canas de bambu por que passávamos, mostravam as cicatrizes dessas frequentes demandas pelas desejadas larvas.

O caminho levou-nos até Indein, a povoação mais próxima, onde uma rua única, era palco do mercado local. Havia um pouco de tudo entre alimentos e artesanato onde os bens eram trocados por dinheiro com turistas e por outros bens com as gentes locais. Era curioso observar que se não fossem os turistas, o dinheiro de nada servia nesta aldeia.

Deixámo-nos andar perdidos por ali. Sentimo-nos bem entre os locais, conversando e aprendendo o seu modo de vida, observando os hábitos e a indumentária das várias etnias ali representadas. “Estão a ver, aquelas mulheres, com aquelas vestes escuras e panos coloridos sobre os ombros e sobre a cabeça? são Pa O”, dizia a nossa guia enquanto caminhávamos. Mais à frente, um pescador exibia-nos orgulhoso o resultado da sua “pescaria”, dois peixes dourados de tamanho médio cuidadosamente colocados numa cesta.

Continuando, cruzámo-nos com uma simpática mulher com uma pilha de lenha às costas e que fumava um vigoroso charuto segurando-o no espaço onde lhe faltavam alguns dentes. Entre pujantes baforadas sorria e falava connosco com a ajuda da nossa guia. A nossa guia ofereceu-lhe uma embalagem com fruta, e a mulher continuou o seu caminho visivelmente satisfeita. Nós também…

Voltando à nossa canoa, partimos em busca de mais singularidades deste lago.

Parámos numa “fábrica” de papel e das conhecidas sombrinhas. Vivendo hoje em dia à custa dos turistas que os visitam, preservam desta forma a arte ancestral do fabrico do papel artesanal. Aprendemos as várias etapas desde o fabrico da pasta de papel até à colocação desta pasta decorada com pétalas de flores, sobre uma rede fina que lhe dará a forma final. Depois é só esperar que seque e ali estava o bonito papel que há alguns anos atrás seria a única forma de preservar a cultura e a arte deste povo.

Visitámos também uma fábrica de artigos em prata oriunda das redondezas do lago. Esta fábrica, era uma espécie de centro profissional para jovens desfavorecidos, que encontravam aqui uma forma de aprenderem um ofício e garantirem desta forma a sua subsistência. Com a consciência tranquilizada em alguns artigos que adquirimos, partimos de novo, desta feita em direcção a um restaurante local, magnificamente localizado nuns terraços sobre o lago.

Foi um almoço agradável, onde duas culturas distantes se sentaram à mesma mesa. A nossa e a da nossa guia de etnia Shan. Sintonizaram-se vivências e expectativas partilhando-se formas de vida. Parte da missão daquilo que para nós é uma Viagem estava ali a ser cumprida. Por um lado pelas experiências partilhadas mas neste caso e porque a Birmânia é especial, porque dávamos a oportunidade (não ostensivamente) àquela rapariga de compreender que havia muitas coisas que ela estaria a ser privada na sua vida e a liberdade nas suas mais variadas formas, seria provavelmente a mais significativa.

Foi com bastante comedimento que o fizemos, porque o nosso objectivo, não era hostilizar estilos de vida, mas sim dar resposta à sua curiosidade natural sobre a nossa vida. Não queríamos de forma alguma deprimi-la mas sim alertar mais uma consciência que terá com certeza influência no futuro deste país que esperamos que seja bem mais risonho.

Com a alma e o estômago bem recompensados partimos em busca do local mais venerado do lago: o templo Phaung Daw Oo Paya. Cinco pequenas imagens de Buda, já disformes pelas inúmeras camadas de ouro, colocadas pelos crentes eram as personagens principais de uma lenda imemorial que alimentava espiritualmente o templo. Anualmente realiza-se uma procissão ao longo do lago, onde as estátuas são colocadas numa imponente embarcação. Reza a história que numa dessas procissões a embarcação se voltou subitamente, levando os pequenos budas ao encontro do fundo do lago. Após longas e demoradas buscas, apenas quatro imagens foram recuperadas.

Vendo que eram infrutíferas todas as tentativas de recuperar a quinta estátua, e perante a consternação geral, a população voltou ao templo no intuito de colocar as imagens que se tinham salvo nos respectivos pedestais. Para espanto de todos, verificaram que a quinta imagem estava colocada no seu pedestal original. A partir daí, esta imagem nunca mais saiu do templo, e apenas as outras quatro saem para a procissão anual.

O templo é atractivo e bem cuidado e a bonita embarcação dourada com a sua imponente cabeça de pássaro na proa, que anualmente “carrega” as estátuas, pode ser vista nas suas imediações.

Se o Phaung Daw Oo Paya era o templo mais sagrado do lago, o mais curioso era sem dúvida o Nga Hpe Chaung. Um mosteiro sobre estacas no meio do lago, com mais de 150 anos de história e integralmente construído em madeira. Estas características já seriam por si só bastante apelativas para a realização de uma visita, mas o que torna o mosteiro mais curioso, são os seus simpáticos e acrobáticos habitantes. Não, não estamos a falar dos monges que meditam no local, mas sim nos seus inúmeros gatos, que dão o nome pelo qual o mosteiro é conhecido: “Mosteiro dos gatos saltadores”.

Como dizia o Lonely Planet, parece que os monges também se aborrecem e como forma de lutarem contra o tédio, ensinaram admiravelmente os seus amiguinhos de 4 patas, que diga-se em abono da verdade não são muito obedientes por natureza (eu sei-o por experiência própria e quotidiana!), a saltar entre umas pequenas argolas empunhadas pelos monges.

Assim, que chegámos, o estilo do templo agradou-nos bastante, bem como a colecção de imagens de Buda que lá se encontrava. Mas o que mais nos ficou na memória foram as habilidades saltadoras dos gatos, habilmente coordenadas pelos sempre introspectivos monges.

O dia já ia longo e era tempo de voltar. Tal como prevíramos pela manhã, mais uma vez tínhamos sido surpreendidos, por tudo o que víramos e pela beleza indomável deste lugar, que por mais que tentemos explicar, só vivida será possível de compreender.

Estava na hora de voltar ao nosso idílico hotel. Não havia sítio melhor para melancolicamente recordarmos, já com saudade, toda esta viagem, que nos deixou marcas bem fundas na nossa alma.

São as marcas deixadas por um povo inolvidável, no sofrimento e no afecto que sempre demonstraram connosco. Na dignidade e sabedoria que possui e que nunca teve oportunidade de o demonstrar ao mundo. Pelos locais magníficos, todos eles diferentes uns dos outros. Pelo misticismo criado à volta do atraso no desenvolvimento do país que o transporta para o nosso imaginário de séculos passados e que se mantém ainda hoje bem presente. Por sabermos que não será por muito tempo que será possível visitar um país intocado pela globalização, onde os gestos são espontâneos, os trajes intemporais e onde os rituais se confundem com os livros de história.

Foi sem dúvida uma das viagens mais marcantes da nossa vida!

É inevitável pensar em todos os que nos acompanharam na nossa viagem, quando milhares de birmaneses foram mortos durante as ultimas manifestações.

Parece que o destino teima em não deixar voar os birmaneses, e é por isso que resolvemos partilhar a nossa experiência na Birmânia, para que todos saibam que o que se passa é ultrajante e injusto!

Da nossa parte e esperando que todos estejam bem, desejamo-vos a maior sorte do mundo!

Até sempre Birmânia …