Tínhamos 4 dias completos para conhecer Pequim, que não sendo suficientes para conhecer em detalhe uma cidade com 14 milhões de habitantes e com a riqueza cultural de Pequim, eram no entanto suficientes para conhecer aqueles que são os pontos mais interessantes.
Fruto de experiências anteriores, já aprendemos a controlar um bocadinho o jet leg e por isso mesmo, não nos rendemos ao cansaço natural e após uma rápida passagem pelo hotel para deixar as malas já nos encontrávamos prontos para deambular pelas ruas de Pequim.
A ansiedade de ir ao encontro de mitos e lendas chinesas e de encontrar aquelas imagens que povoam o nosso imaginário carregadas de cor e exotismo, empurravam-nos a todo o momento para os locais que tínhamos aprendido a venerar mesmo antes de os conhecer. Basta pensar que Pequim é a capital dinástica chinesa desde o século XIII, onde reinaram dezenas de imperadores autoritários ou ausentes, perversos ou puritanos, mas sempre rodeados de faustosas cortes que inebriavam qualquer reino à face da terra.
Era por tudo isto que aqui estávamos, foi por tudo isto que fomos atraídos e era por tudo isto também que nos instalámos num hotel localizado num hutong (os antigos bairros de Pequim). O hotel estava impregnado de história ou não fosse ele uma tradicional casa chinesa recuperada onde não faltavam sequer os famosos pátios interiores com as gaiolas penduradas nas árvores.
Saímos em direcção ao centro da cidade. A cidade proibida era o nosso destino e passados poucos metros, já tomávamos consciência do que é o verdadeiro comunismo. Um enorme arranha-céus com ostensivas indicações do Banco da China apresentava na sua base o maior stand da Ferrari que já vi na vida! Viva o comunismo!
Como começávamos a ver como funcionava o comunismo, aproveitámos logo o local para levantar os nossos primeiros yuans. Não entrámos no stand, porque não somos ostensivos e continuámos rumo ao nosso objectivo.
Passados poucos instantes, começámos também a perceber que Pequim é de uma dimensão avassaladora: são mais de 16000 Km2, aproximadamente o tamanho da Bélgica! Nós escolhemos um hotel localizado bem no centro da cidade e olhando para o mapa era-o de facto, mas a realidade mostrou-nos que o “centro” ficava a pelo menos 1 hora a pé. Aprendemos que em Pequim se apanha um táxi para todo o lado. É que as distâncias não são para brincadeiras, ainda mais quando acompanhadas por temperaturas a rondar uns “simpáticos” 40ºC.
A curta viagem mostrou-nos avenidas monumentais e rectilíneas, centros comerciais por todo o lado, arranha-céus intimidadores e um trânsito caótico. A cidade está em ebulição e dá a sensação que ninguém quer perder o que aqui se passa, motivo pelo qual encontrávamos a cada canto representações de multinacionais de todo o mundo.
Chegámos à cidade proibida. Na frente da entrada principal, estava nada mais nada menos que a maior praça do mundo: Tiananmen. Foi inevitável lembrar as imagens que correram mundo com o jovem estudante chinês a desafiar corajosamente um tanque do exército que o mataria poucos instantes depois. Na luta pelos seus ideais, morreram milhares de estudantes nas manifestações de 1989. Acreditavam na mudança política do seu país, mas continua a imperar o livro vermelho do Mao.
Tiananmen é a maior praça pública do mundo. Quando chegámos, preparavam-se as comemorações da aproximação aos jogos olímpicos, faltava exactamente 1 ano nesse dia e a praça estava praticamente fechada. Voltaríamos mais tarde.
Na entrada da cidade proibida e entre as muralhas vermelhas com as suas torres em estilo de pagode, sobressaía a gigantesca imagem de Mão Tsé Tung. As feições de avozinho bonacheirão quase faziam esquecer as atrocidades por que fez passar o povo chinês onde em apenas num ano e fruto das suas políticas completamente alienadas fez morrer à fome 50 milhões de pessoas. Mais do que em toda a II guerra mundial!
Como todos os locais históricos de Pequim, a cidade proibida impressiona quer pela sua dimensão quer pelo misticismo que impregna as suas paredes.
Convenhamos, que as expectativas ficam altas…
Mas não nos podemos queixar, a cidade proibida é um extraordinário complexo de palácios, praças, pavilhões, jardins e muito, muito mais. Existe espaço mais do que suficiente para acolher os milhares de pessoas, que se perdem meio extasiados nos séculos de História a que este local nos transporta. A arquitectura e o fausto são tudo aquilo que esperávamos. É apenas… maior!
Em seguida, fomos explorar o famoso mercado nocturno que nos presentearia com algumas imagens que ainda hoje tenho dificuldade em apagar da memória. É certo que sabíamos do exotismo da gastronomia asiática em geral e da chinesa em particular. Já tínhamos inclusivamente contactado com alguns pratos “exóticos” no sudeste asiático, mas aqui a “qualidade” e quantidade destes “condimentos” era verdadeiramente avassaladora!
Uma enorme excitação assaltou-nos quando começámos a ver umas espetadinhas de bichos-da-seda, escorpiões, gafanhotos, estrelas-do-mar, cavalos-marinhos, pequenos lagartos e uma quantidade de outros insectos difíceis de descrever!!! Felizmente, não se confirmaram as referências a cães…
E quando estávamos nós ainda a tentar controlar a nossa incredulidade “Ah isto é só para turista ver!” eis que aparecem uns esfomeados chineses que pedem várias espetadas e as comem ali mesmo entre comentários de uma turista tão incrédula como nós “estes chineses são doidos não são?”. Acenámos em sinal de aprovação, mas nem assim conseguimos retirar a satisfação estampada na cara daquele casal de chineses!
Sentindo que o dia já ía longo e que já eram muitas as emoções vividas, apanhámos uma espécie de tuk tuk, que nos levou ao nosso hotel. Era tempo para interiorizar as muitas experiências vividas durante o dia.
E ainda mal tinha começado…
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