O Barkhor, é todo o percurso exterior e que envolve a joía da coroa, a verdadeira pérola tibetana: o templo de Jokhang.
O que de melhor tem o Barkhor, é o facto de continuar a ser um local vivo em todos os aspectos. A chacina da cultura e religião tibetana, parece aqui renascer das cinzas e mostrar ao mundo que uma tradição milenar, não se apaga em meia dúzia de anos. É incrível a visão de milhares de peregrinos, com rostos sofridos e corpos sacrificados arrastando-se pelo percurso, no sentido dos ponteiros do relógio, tal como se faz em qualquer templo tibetano, cegos de obstinação e completamente desligados do que se passa à sua volta. Parecem trazer um mundo cheio de nada e no entanto a sua força e tenacidade marcadas em cada ruga das suas peles curtidas, parecem carregar a sabedoria suprema, de quem não tendo nada, nada mais precisa do que a sua própria espiritualidade.
Estes concentram-se numa realização de rituais acompanhados por uma ladainha de mantras repetidamente recitados que fazem entrar em transe quem os recita e quem os escuta.
A atmosfera que se respira aqui é de uma fé electrizante, que nos despe de preconceitos e nos faz mergulhar num inebriante caleidoscópio de sentimentos ampliados pelos sons, cheiros, cores e rituais que se praticam e que nunca vislumbrei em nenhum outro local.
Na entrada, a concentração de pessoas é enorme. Dezenas deitam-se no chão e levantam-se num ritual acompanhado de mantras que parecem trespassar-nos a mente e que nos deixa num estado algo confuso e que dá a sensação de flutuarmos por ali. Depois de alguma dificuldade em descobrir a entrada, seguimos para o interior do templo, passando por um enorme moínho de oração com uma fila imensa para ali realizar a sua oração.
A vista é soberba! Os picos escarpados, convivem com a visão mágnifica do Palácio Potala, que sobranceiro a toda a cidade, parece querer subir ao céu.
Conhecer o Tibete, passa obrigatoriamente por conhecer os mosteiros, o centro nevrálgico da cultura tibetana, onde estão cimentados os valores educativos, culturais e sociais.
A cerca de 5 quilómetros de Lhasa, facilmente acessível de taxi ou autocarro, o mosteiro de Sera nasce a partir de uma artéria principal antes da entrada, que serve de mercado. Os edifícios, onde predomina o branco, vão subindo a montanha de forma mais ou menos anárquica e vão compondo o mosteiro com todas as suas capelas, dormitórios, cozinhas e todos as outras divisões necessárias a um complexo desta dimensão. Uns frescos enormes e coloridamente pintados, parecem observar-nos das arribas escarpadas das montanhas circundantes.
Também nós contribuímos, não tanto por motivação religiosa mas sim porque estas doações são o único dinheiro disponível, juntamente com o bilhete de entrada cobrado aos turistas, para a manutenção de todo o mosteiro. Sabendo que Mao dizia que "a religião é o ópio do povo", e que os chineses bem se esforçaram por destruir a religião do Tibete, não é plausível que o mosteiro receba alguma doação oficial pelo trabalho notável que faz em todos os aspectos da vida quotidiana dos tibetanos.
A visita foi bastante agradável, pelo próprio mosteiro e pela vista que vamos admirando à medida que vamos subindo a montanha. No topo chegámos à sala de debate, um espaço dedicado aos debates sobre vários temas (excepto políticos obviamente) e que reune inúmeras filas de monges alinhados que sobem ao palanque para discutirem e contribuirem com a sua opinião relativamente ao assunto em questão. Se o tema do discurso nos foi infelizmente ininteligível, já a beleza do folclore que envolvia a cerimónia não o foi e deixou-nos a esperança num futuro em que estes debates voltem a ser verdadeiramente livres como o foram no passado. Vamos esperar...
Depois de uma pausa para o almoço, onde um apetitoso e suculento naco de iaque nos acalmou o apetite voraz que toda aquela miscelânea de emoções nos tinha provocado, partimos para o nosso próximo destino o Norbulinka, o palácio de verão dos Dalai Lamas.
Almoçámos em Lhasa, após termos apanhado o autocarro, onde pudemos através da universal linguagem gestual, "pôr a conversa em dia" com alguns tibetanos que nos acompanhavam na exígua viatura que servia de mini autocarro.
O Norbulinka, fica nas imediações de Lhasa e fica por isso acessível a pé, mas a caminhada ainda levava uns 20 ou 30 minutos e como já tínhamos alguns quilómetros nas pernas, apanhámos uma simpática bici-táxi.
O Norbulinka é na realidade mais do que um palácio, são vários palácios, jardins e outros aposentos, que serviam de base de verão aos Dalai Lamas, que fugiam desta forma ao calor abrasador que se fazia sentir no Palácio Potala, desde sempre a residência oficial do Dalai Lama. Foi a partir de 1755 com o sétimo Dalai Lama que se iniciou a construção do palácio de verão. A partir daí e até ao actual Dalai Lama, o décimo quarto, foram sendo construídos mais palácios que iam acolhendo os novos residentes.
O mais interessante desta visita, foi o passeio relaxante nos jardins e o contacto directo com inúmeras famílias tibetanas que aqui acorrem para passear.
Para terminar o dia, e como em Lhasa, os restaurantes são raros, fomos jantar a uma pousada, cujo restaurante vinha recomendado no lonely planet. A especialidade era imagine-se iaque burguer! Por mais que tentemos fugir da globalização, parece que ela nos vem sempre bater à porta! Se o McDonalds descobre isto, acabam-se os iaques no Tibete e no Nepal, porque estava muito bom. Uma experiência a não repetir é o chá de manteiga de iaque, tão apreciado pelos tibetanos. Manteiga derretida com sal misturado, não é própriamente assim, que apetece terminar o jantar...
Recolhemos ao hotel, tão cansados como felizes...
Falar sobre temas políticos ou mesmo religiosos não é permitido. É proibida a posse de fotografias do Dalai Lama ou da bandeira do tibete. Não adianta falar com os locais, dado que muitos, para não dizer quase todos os locais que têm contacto com os turistas, embora sejam tibetanos, estão completamente controlados pelos chineses.
Seria impossível explicar todas as atrocidades por que passaram aquelas gentes nas mãos do regime comunista chinês. Não é difícil adivinhar o número de mortos naquele local inóspito, longínquo e arredado de qualquer tipo de meios de comunicação, que proporcionam um refúgio ideal para a carnificina e genocídio das pessoas, das tradições e da cultura tibetana, que está condenada a desaparecer para sempre naquele território.